p/ Carlito
O mundo é este:
caminhando
pela rua do Ouvidor
você comenta
e me mostra
a sequência de lojas
e de ar-condicionados
De repente
vem este bafo frio
na pele do braço
um vento intermitente
como um pisca-pisca
alerta
A rua era aquela
a antiga
que a gente leu
um dia
nas páginas
do Machado
Mas a rua
agora
é esta
são estas lojas
e o ar condicionado
bafejando frio
na calçada
Lembra do Kafka?
Ele coçava
a têmpora esquerda
e era garçom naquele bar
– Brasil?
na praça San Salvador
onde hoje à tarde
uma velha negra
cabelos puxados na nuca
cantava um samba alegre
e pensamos que fosse
a Elza Soares
O mundo
é este
a gente sabe que é este
“no fundo,
as palmeiras
como caracteres chineses
desarrumados”
Ou aquele telhado
comprido
que parecia
um trilho de trem
ia até uma estranha torre
de cimento
para acabar no Aterro
Pensei depois
neste quadro:
o pitoresco do
morrinho
com luzinhas na cintura
o petroleiro assentado
sobre as águas
escuras
e os
procedimentos de porta
uma vontade de imitar
a paisagem
uma tristeza bruta
– o que seria a fidelidade?
– o que seria a lealdade?
– a felicidade?
o avião arremeteu
com o vento de cauda
foi tudo tão rápido
como
aquela mulher
cantando
a pista estreita
a rua do Ouvidor
estreita
aquela pequena fábula
que li durante a viagem
um conto
estreito
e as paredes
da esquerda
e da direita
que tão depressa
convergiam
uma para
outra.