Ninguém mais fala no assunto, mas a gripe suína continua. Parece que entrou na veia do cotidiano, como mais uma doença qualquer. Se bem que não se trata de uma gripe qualquer, se levarmos em conta a avalanche de notícias sobre o assunto entre junho e julho desse ano. Se era desimportante assim, por que o alarde?
Nesta manhã, meu filho, com febre alta há dois dias, espirrando, tossindo, calafrios no corpo, enfim, os sintomas de uma gripe forte, foi ao Pronto Socorro do Samaritano. Como é asmático, a médica receitou o famoso Tamiflu. No entanto, achamos que por vias das dúvidas seria prudente que ele fizesse o exame para se ter certeza da doença, já que o vírus só é detectado com o exame. Daí começou o jogo de empurra-empurra do hospital: não, não fazemos o exame. O Instituto Fleury, para onde nos mandaram, também não quis fazer o exame – só fazem em estado grave, ou seja, quando a pessoa está mais para lá do que para cá. Enquanto isso, por curiosidade, procurei na internet e vi que tanto o Hospital Samaritano quanto o Fleury, em seus sites, dizem que fazem o exame, principalmente no caso de crianças e idosos.
Eles dizem que fazem, mas não fazem. Claro que passar quase meio dia num hospital, para uma criança de 8 anos, já fragilizada pela doença, é no mínimo um desrespeito do hospital e dos médicos. Para não dizer outra coisa. Segundo o hospital, como última cartada para não realizar o exame, o governo não permite que se faça o exame em casos como o dele, em que a dúvida parece ser maior do que a certeza.
Então, me pergunto: para que serve o exame? Não seria exatamente para tirar a dúvida e poder medicar de forma correta o paciente? Será que é isso o Brasil: dane-se a saúde da população e viva a corrupção desenfreada e o discurso rastaquera de senadores e deputados que não fazem nada e ainda metem a mão no nosso bolso.
Como o seguro não cobre esse tipo de exame – outro disparate da área da saúde nacional –, estávamos dispostos a pagar o exame, faríamos de qualquer forma. No entanto, vendo que meu filho já estava cansado, precisando do repouso da casa, e também de se alimentar, optamos por dar o Tamiflu e esquecer do exame. Mas até agora a revolta está presa na garganta. Sei que ele vai ficar bom logo, que é uma gripe que com o medicamento passa. Mas se nós, que somos da classe média, ou seja, privilegiados, e que podemos pagar um exame, podemos comprar os medicamentos, somos tratados assim, fico imaginando como deve ser o tratamento dado à população carente dessa joça chamada Brasil.
Mas a pergunta continua batendo na cabeça: por que não fazem o exame? Para que serve o serviço de saúde, tanto privado quanto público?
Esse texto é apenas um relato, mas também um alerta: a gripe continua, e a prevenção, que tinha sido um ponto positivo no começo do surto, até mesmo matéria de propaganda do governo atual, caiu no esquecimento, como se a gripe suína não existisse mais, como se não andasse solta, leve e fagueira pelos ares da cidade, das escolas, das conduções, das salas fechadas de cinema, das repartições com pouca ventilação etc. Na televisão, não se fala mais no assunto; no jornal, reina o silêncio (só se interessam por números astronômicos de mortos); e, ao que parece, também nos hospitais não se fala mais nisso, dá-se o Tamiflu e dane-se...
