terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Beco


p/ Carlito




O mundo é este:
caminhando
pela rua do Ouvidor
você comenta
e me mostra
a sequência de lojas
e de ar-condicionados
De repente
vem este bafo frio
na pele do braço
um vento intermitente
como um pisca-pisca
alerta


A rua era aquela
a antiga
que a gente leu
um dia
nas páginas
do Machado


Mas a rua
agora
é esta
são estas lojas
e o ar condicionado
bafejando frio
na calçada






Lembra do Kafka?
Ele coçava
a têmpora esquerda
e era garçom naquele bar
– Brasil?
na praça San Salvador
onde hoje à tarde
uma velha negra
cabelos puxados na nuca
cantava um samba alegre
e pensamos que fosse
a Elza Soares


O mundo
é este
a gente sabe que é este
“no fundo,
as palmeiras
como caracteres chineses
desarrumados”


Ou aquele telhado
comprido
que parecia
um trilho de trem
ia até uma estranha torre
de cimento
para acabar no Aterro


Pensei depois
neste quadro:
o pitoresco do
morrinho
com luzinhas na cintura
o petroleiro assentado
sobre as águas
escuras
e os
procedimentos de porta


uma vontade de imitar
a paisagem
uma tristeza bruta
– o que seria a fidelidade?
– o que seria a lealdade?
– a felicidade?


o avião arremeteu
com o vento de cauda
foi tudo tão rápido
como
aquela mulher
cantando
a pista estreita
a rua do Ouvidor
estreita
aquela pequena fábula
que li durante a viagem
um conto
estreito


e as paredes
da esquerda
e da direita
que tão depressa
convergiam
uma para
outra.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ombros





Na noite anterior
foi um avião
Nesta
um helicóptero
que de repente
lançou
uma luz intensa
dentro deste quarto
onde trabalho


foi como
um relâmpago
que vasculha
dentro
deste espaço privado
o crime
o vestígio de algum
crime
me lançando
como uma escrita
rápida
numa lista de suspeitos


foi como um
golpe
a luz azulou
cada canto
do quarto


azulou meu rosto
inteiro
sentado em silêncio
no escuro
absorvido pelas
minhas dores
tão mesquinhas
e particulares


e deixou impresso
na parede
do fundo
como numa gravura
o meu corpo curvo
de ombros curvos




01/10/2009