segunda-feira, 20 de junho de 2011

Chorume


São Paulo

Então nada mais resta.
Tudo envelheceu
de repente,
ou já vinha envelhecendo
de antes,
muitos antes.
Não foi agora
quando você se levantou,
saiu da cama,
abriu a janela
e percebeu
que alguma coisa
estava mudada,
ou que tudo
estava mudado,
que a cama
em que se deitara
não era mais
a mesma cama
em que
na noite anterior,
cansado, mundo
caduco, inferno
dos infernos, havia
se deitado.
Ainda olhou
para a cabeceira
da cama,
para aquele criado-mudo
cheio de livros.
Como envelheceram
os livros
os poetas de cabeceira
Como os versos
não se sustentam mais,
falam de um mundo,
de um outro
mundo
que a manhã
aniquilou
e a manhã não poderia ser
a felicidade futura
adiada
a cada almoço
enquanto mastigava
sua couve
ou o arroz insosso.
As palmeiras,
indecifráveis palmeiras,
e você ficou mudo,
manso,
como queriam
que você ficasse,
manso, muito manso,
sorridente
sem dentes
em sua velhice.
E como são dóceis
os velhinhos
e tudo que envelheceu
com os velhinhos.
Então nada mais resta
e não ser continuar
nesta linha reta
entre o café da manhã,
as imagens vulcânicas
do café
no coador,
o almoço,
o trabalho, os dentes
os dentes
e a couve
para sempre murcha
entre os dentes.

1 comentários:

Leo La Selva disse...

de volta ao começo, de volta...