Nunca me pagaram para viajar, mas quando me pagaram, eu não estava muito bem. Caminhei muito tempo, um pouco desentendido, por uma pequena cidade. Não me lembro agora se no Brasil mesmo, ou na Itália. A memória nunca funcionou direito e sempre teve o costume de misturar tudo, tantos os lugares quanto os nomes. As paisagens quase que se repetem dentro de minha cabeça. Uma paisagem se sobrepõe à outra, ou um paisagem rouba o lugar da outra, de forma que nunca sei exatamente qual a paisagem verdadeira, se é que existe alguma coisa verdadeira, fora deste espaço ocupado pelas palavras. Talvez acabe me desviando do rumo. É outra doença, que nunca passou. A do desvio. A de nunca conseguir me manter apenas numa rota, a única rota, a rota lógica de um caminho. Quando abro uma pequena brecha nessa rota, logo outra rota se forma rapidamente e me desvio, sem conseguir retornar tranquilamente à rota inicial. Quando volto, é a custa de um esforço enorme. Um grande esforço. Já me disseram que isso se chama preguiça, que tenho preguiça. Quando me pagaram para viajar, eu devia estar com preguiça.
2 comentários:
meu amigo heitorto. onde você anda, cabra do céu e de deus? dê notícias. diga alguma coisa, como ah, que preguiça. mas diga em minha direção.
grande abraço, m.
rss o curioso e que não da preguiça... Espero da proxima podermos caminhar juntos. Abraço
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